Quem sou eu

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Buda

"Não acredite em algo simplesmente porque ouviu. Não acredite em algo simplesmente porque todos falam a respeito. Não acredite em algo simplesmente porque esta escrito em seus livros religiosos. Não acredite em algo só porque seus professores e mestres dizem que é verdade. Não acredite em tradições só porque foram passadas de geração em geração. Mas depois de muita análise e observação, se você vê que algo concorda com a razão, e que conduz ao bem e beneficio de todos, aceite-o e viva-o".Buda

sábado, 13 de agosto de 2011

Martha Medeiros

O único silêncio que perturba,é aquele que fala. E fala alto. É quando ninguém bate à nossa porta,não há emails na caixa de entrada, não há recados na secretária eletrônica e, mesmo assim, você entende a mensagem.
Martha Medeiros

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Martha Medeiros

Há sempre o momento de pedir ajuda, de se abrir, de tentar sair do buraco. Mas, antes, é imprescindível passar por uma certa reclusão. Fechar-se em si, reconhecer a dor e aprender com ela. Enfrentá-la sem atuações. Deixar ela escapar pelo nariz, pelos olhos, deixar ela vazar pelo corpo todo, sem pudores. Assim como protegemos nossa felicidade, temos também que proteger nossa infelicidade. Não há nada mais desgastante do que uma alegria forçada. Se você está infeliz, recolha-se, não suba ao palco. Disfarçar a dor é dor ainda maior.

Carlos Drummond de Andrade

Para Viver um Grande Amor


É preciso abrir todas as portas que fecham o coração.
Quebrar barreiras construídas ao longo do tempo,
Por amores do passado que foram em vão
É preciso muita renúncia em ser e mudança no pensar.
É preciso não esquecer que ninguém vem perfeito para nós!
É preciso ver o outro com os olhos da alma e se deixar cativar!
É preciso renunciar ao que não agrada ao seu amor...
Para que se moldem um ao outro como se molda uma escultura,
Aparando as arestas que podem machucar.
É como lapidar um diamante bruto...para fazê-lo brilhar!
E quando decidir que chegou a sua hora de amar,
Lembre-se que é preciso haver identificação de almas!
De gostos, de gestos, de pele...
No modo de sentir e de pensar!
É preciso ver a luz iluminar a aura,
Dando uma chance para que o amor te encontre
Na suavidade morna de uma noite calma...
É preciso se entregar de corpo e alma!
É preciso ter dentro do coração um sonho
Que se acalenta no desejo de: amar e ser amada!
É preciso conhecer no outro o ser tão procurado!
É preciso conquistar e se deixar seduzir...
Entrar no jogo da sedução e deixar fluir!
Amar com emoção para se saber sentir
A sensação do momento em que o amor te devora!
E quando você estiver vivendo no clímax dessa paixão,
Que sinta que essa foi a melhor de suas escolhas!
Que foi seu grande desafio... e o passo mais acertado
De todos os caminhos de sua vida trilhados!
Mas se assim não for...
Que nunca te arrependas pelo amor dado!
Faz parte da vida arriscar-se por um sonho...
Porque se não fosse assim, nunca teríamos sonhado!
Mas, antes de tudo, que você saiba que tem aliado.
Ele se chama TEMPO... seu melhor amigo.
Só ele pode dar todas as certezas do amanhã...
A certeza que... realmente você amou.
A certeza que... realmente você foi amada."

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Carlos Drummond de Andrade

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.
O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.
Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.
Carlos Drummond de Andrade

É assim que te quero, amor – Pablo Neruda


É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há-de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro. Pablo Neruda

Adiamento – Fernando Pessoa


Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã.
E assim será possível; mas hoje não…
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico…
Esta espécie de alma…
Só depois de amanhã…
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte…
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito derrepente, de dentro…
Não, não queiram saber mais nada, é segredo não digo.
Só depois de amanhã…
Quando eu era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
Depois de amanhã serei outro.
A minha vida triunfar-se-á
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital…
Mas por um edital de amanhã.
Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu compar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo…
Antes, não…
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã…
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Sim, talvez só depois de amanhã…
O porvir…
Sim, o porvir… Fernando Pessoa

Mestre – Fernando Pessoa


Mestre, meu mestre querido!
Coração do meu corpo intelectual e inteiro!
Vida da origem da minha inspiração!
Mestre, que é feito de ti nesta forma de vida?
Não cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem de nada,
Alma abstrata e visual até aos ossos,
Atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre múltiplo,
Refúgio das saudades de todos os deuses antigos,
Espírito humano da terra materna,
Flor acima do dilúvio da inteligência subjetiva… Mestre, meu mestre!
Na angústia sensacionista de todos os dias sentidos,
Na mágoa quotidiana das matemáticas de ser,
Eu, escravo de tudo como um pó de todos os ventos,
Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de mim!
Meu mestre e meu guia!
A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou,
Seguro como um sol fazendo o seu dia involuntariamente,
Natural como um dia mostrando tudo,
Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade.
Meu coração não aprendeu nada.
Meu coração não é nada,
Meu coração está perdido.
Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu.
Que triste a grande hora alegre em que primeiro te ouvi!
Depois tudo é cansaço neste mundo subjetivado,
Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas,
Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas,
Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente.
Depois, tenho sido como um mendigo deixado ao relento
Pela indiferença de toda a vila.
Depois, tenho sido como as ervas arrancadas,
Deixadas aos molhos em alinhamentos sem sentido.
Depois, tenho sido eu, sim eu, por minha desgraça,
E eu, por minha desgraça, não sou eu nem outro nem ninguém.
Depois, mas por que é que ensinaste a clareza da vista,
Se não me podias ensinar a ter a alma com que a ver clara?
Por que é que me chamaste para o alto dos montes
Se eu, criança das cidades do vale, não sabia respirar?
Por que é que me deste a tua alma se eu não sabia que fazer dela
Como quem está carregado de ouro num deserto,
Ou canta com voz divina entre ruínas?
Por que é que me acordaste para a sensação e a nova alma,
Se eu não saberei sentir, se a minha alma é de sempre a minha?
Prouvera ao Deus ignoto que eu ficasse sempre aquele
Poeta decadente, estupidamente pretensioso,
Que poderia ao menos vir a agradar,
E não surgisse em mim a pavorosa ciência de ver.
Para que me tornaste eu? Deixasses-me ser humano!
Feliz o homem marçano
Que tem a sua tarefa quotidiana normal, tão leve ainda que pesada,
Que tem a sua vida usual,
Para quem o prazer é prazer e o recreio é recreio,
Que dorme sono,
Que come comida,
Que bebe bebida, e por isso tem alegria.
A calma que tinhas, deste-ma, e foi-me inquietação.
Libertaste-me, mas odestino humano é ser escravo.
Acordaste-me, mas o sentido de ser humano é dormir.

Sentir-se amado – Martha Medeiros



O cara diz que te ama, então tá. Ele te ama.
Sua mulher diz que te ama, então assunto encerrado.
Você sabe que é amado porque lhe disseram isso, as três palavrinhas mágicas. Mas saber-se amado é uma coisa, sentir-se amado é outra, uma diferença de milhas, um espaço enorme para a angústia instalar-se.
A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e verbalização, apesar de não sonharmos com outra coisa: se o cara beija, transa e diz que me ama, tenha a santa paciência, vou querer que ele faça pacto de sangue também?
Pactos. Acho que é isso. Não de sangue nem de nada que se possa ver e tocar. É um pacto silencioso que tem a força de manter as coisas enraizadas, um pacto de eternidade, mesmo que o destino um dia venha a dividir o caminho dos dois.
Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida, que zela pela sua felicidade, que se preocupa quando as coisas não estão dando certo, que sugere caminhos para melhorar, que coloca-se a postos para ouvir suas dúvidas e que dá uma sacudida em você, caso você esteja delirando. “Não seja tão severa consigo mesma, relaxe um pouco. Vou te trazer um cálice de vinho”.
Sentir-se amado é ver que ela lembra de coisas que você contou dois anos atrás, é vê-la tentar reconciliar você com seu pai, é ver como ela fica triste quando você está triste e como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d´água. “Lembra que quando eu passei por isso você disse que eu estava dramatizando? Então, chegou sua vez de simplificar as coisas. Vem aqui, tira este sapato.”
Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição na hora da discussão. Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente bem-vindo, que se sente inteiro. Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada, aquele que sabe que não existe assunto proibido, que tudo pode ser dito e compreendido. Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo. Sente-se amado quem não ofega, mas suspira; quem não levanta a voz, mas fala; quem não concorda, mas escuta.
Agora sente-se e escute: eu te amo não diz tudo.”
Martha Medeiros

Amor – Poema de Fernando Pessoa


O amor quando se revela
Não se sabe revelar
Sabe bem olhar pra ela
Mas não lhe sabe falar. Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer
Mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar
Mas quem sente muito cala
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala
Fica só inteiramente.
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar
Já não terei que contar-lhe
Porque lhe estou a falar.
Fernando Pessoa

Poema para Luís de Camões

José Saramago




Meu amigo, meu espanto, meu convívio,
Quem pudera dizer-te estas grandezas,
Que eu não falo do mar, e o céu é nada
Se nos olhos me cabe.
A terra basta onde o caminho pára,
Na figura do corpo está a escala do mundo.
Olho cansado as mãos, o meu trabalho,
E sei, se tanto um homem sabe,
As veredas mais fundas da palavra
E do espaço maior que, por trás dela,
São as terras da alma.
E também sei da luz e da memória,
Das correntes do sangue o desafio
Por cima da fronteira e da diferença.
E a ardência das pedras, a dura combustão
Dos corpos percutidos como sílex,
E as grutas do pavor, onde as sombras
De peixes irreais entram as portas
Da última razão, que se esconde
Sob a névoa confusa do discurso.
E depois o silêncio, e a gravidade
Das estátuas jazentes, repousando,
Não mortas, não geladas, devolvidas
À vida inesperada, descoberta,
E depois, verticais, as labaredas
Ateadas nas frontes como espadas,
E os corpos levantados, as mãos presas,
E o instante dos olhos que se fundem
Na lágrima comum. Assim o caos
Devagar se ordenou entre as estrelas.

Eram estas as grandezas que dizia
Ou diria o meu espanto, se dizê-las
Já não fosse este canto.

Espaço curvo e finito



Oculta consciência de não ser, Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças e ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe, um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti. José Saramago

Fala do velho do restelo ao astronauta

José Saramago






Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.

Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.

No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.

Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.

Poema à boca fechada -Saramago

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

Retrato do poeta quando jovem




Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brancas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.

Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.

A humanização do divino em o evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago



Resumo: A literatura é, talvez, o meio mais profuso da palavra. Um instrumento com o qual ela, a palavra, institui verdades e inverdades – por vezes fazendo com que uma torne-se a outra. Assim, baseada na liberdade literária de criação, pretende esta pesquisa mostrar a valorização que José Saramago, em O evangelho segundo Jesus Cristo, faz do que é nato ao homem e salientar a consonância de seus pensamentos aos do filósofo alemão Friedrich W. Nietzsche, em seu livro O Anticristo. Esta obra saramaguiana nos faz pensar na veracidade do que lemos, muitos escritos proclamados como verdades absolutas, na aceitação de atitudes ou na falta delas e em nós como um todo com quantidade expressiva de uma fé que nem questionamos como ou por quê. A personalidade das personagens de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, é cheia de qualidades e defeitos, o Divino saramaguiano nos mostra um Deus mais facilmente compreensível. Deus é, assim também, tratado por Nietzsche em O Anticristo. A defesa de Deus com sentimentos humanos e, portanto, ditos impuros é tema das duas obras aqui citadas. E ainda encontramos, também, em Moema de Castro e Silva Olival outra fonte para embasamento desta pesquisa. Baseando, principalmente, no romance de José Saramago e na teoria filosófica de Friedrich Wilhelm Nietzsche, este artigo tenciona evidenciar o Divino humanizado de Saramago. Outro ponto deste trabalho é a explicitação do poder proveniente do discurso persuasivo, da Palavra e da possível criação de Deus pelo homem por meio do poder da Palavra.
Palavras-chave: Divino, humanização, homem, palavra.

José SaramagoIntrodução:
Há, em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, do escritor português José Saramago, uma fonte vasta de inquietantes questões e este trabalho destina-se à problematização de algumas delas, como: A literatura humaniza o Divino ou diviniza o homem? Os textos bíblicos são ditames santos ou literatura santificada? Seria a palavra responsável por tudo o que é tido como real/certo, ficcional/incerto? Esta obra saramaguiana nos faz pensar na veracidade do que lemos, muitos escritos proclamados como verdades absolutas, na aceitação de atitudes ou na falta delas e em nós como um todo com quantidade expressiva de uma fé que nem questionamos como ou  por quê.
Baseando-se no romance de José Saramago, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, e na teoria filosófica de Friedrich Wilhelm Nietzsche, este artigo tenciona evidenciar o Divino humanizado de Saramago e fazer notar a delícia – com perdão da expressão – que são as idéias desses dois pensadores, como se interagem – mesmo não sendo contemporâneos – e como ocasionam questionamentos a quem se predispõe a lê-los sem o pré-conceito medievo que ainda habita em nós. Para tanto, dividimos em duas partes o estudo sugerido: na primeira parte, O homem em Deus, tratamos da humanização do Divino em José Saramago e nos apoiamos nos pensamentos do filósofo alemão Nietzsche. Em E se fez palavra, e a Palavra o todo faz, segunda parte deste trabalho de pesquisa, explicitamos o poder proveniente do discurso persuasivo, da Palavra e da possível criação de Deus pelo homem por meio desse poder.
Para estudiosos e apaixonados em literatura, essa proposta parece ser atraente. Então, não busca, esse trabalho, respostas absolutas e nem resposta alguma, pretende, isso sim, levantar questões que acareiem  o que é crença absoluta com o que poderia ser, ou seja: tratamento literário dispensado a tais verdades; conjeturar sobre crenças que podem parecer (ser) crendices e/ou vice-versa. Ao realizarmos essa pesquisa estaremos estudando a desconstrução da perfeição Divina na literatura, especificamente em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago e evidenciando a importância primordial da Palavra.
O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago1 – O Homem em Deus
O primeiro capítulo do livro de José Saramago, O evangelho segundo Jesus Cristo, trata da descrição interpretativa de uma gravura da série “A Grande Paixão”, de Albrecht Dürer (1471-1528), considerado o grande artista do renascimento alemão. A crucificação é mostrada por meio da gravura, não apenas por descrição, mas também como uma interpretação da imagem pintada pelo artista. Mesmo que não conheçamos a obra de Dürer, é possível concluir que estamos diante de uma imagem construída por palavras, que se refere à outra, uma vez que o narrador nos mostra esse fato ao usar expressões como: o que temos diante de nós é papel e tinta, mais nada – podendo ser uma referência tanto à gravura quanto ao próprio livro. Assim, percebemos que o romance começa com a crucificação de Cristo, o que nos leva a pensar na inversão em relação ao texto bíblico, que segue uma certa ordem cronológica dos acontecimentos: nascimento, ministério, paixão e morte de Jesus. O evangelho segundo Jesus Cristo modifica essa ordem, sendo um claro indicativo para o leitor do teor subversivo que contém. A visão impar de José Saramago, sobre uma já tão conhecida história, não agride o ponto central das crenças, a santidade de Jesus, mas dá sentimentos humanos normais a Ele, a Deus, ao Demônio e a todas as outras personagens. Em um texto que sempre nos soa como temperado com boa pitada de ironia, por vezes até engraçado e sempre muito reflexivo, Saramago carrega essas personagens com grande peso de suas impressões pessoais do homem, da igreja e da sociedade.
Os Seres Divinos, em O evangelho segundo Jesus Cristo, são todos eles repletos de humanidade e o autor, com o uso da paródia: “[...] Deus, nas empíricas alturas, respira, comprazido, os odores da carnagem” (SARAMAGO, 2003, p. 249) e da carnavalização: “Se por um atraso nas comunicações ou enguiço da tradução simultânea, ainda não chegou ao céu notícia de tais ordens, muito admirado deverá estar o Senhor Deus [...]” (SARAMAGO, 2003, p. 249 e 53), que permitem recriações livres e críticas, contraria fatos consumados da História Sagrada, como o dogma da virgindade de Maria; Saramago descreve o ato sexual ocorrido entre José e Maria, que deu origem a Jesus, com – se nos permite o paradoxo – divinal humanidade:
A manhã subia, expandia-se, e em verdade era uma visão de beleza quase insuportável [...] Um sopro de vento ali mesmo nascido bateu na cara de José [...] não era mais do que o aturdimento causado por uma súbita turbulência do sangue, o arrepio sinuoso que lhe estava percorrendo o dorso como um dedo de fogo, sinal de uma outra e mais insistente urgência.
Maria, deitada de costas, estava acordada e atenta [...] José aproximou-se e afastou devagar o lençol que a cobria [...] e Maria, entretanto, abrira as pernas, ou as tinha aberto durante o sonho [...] Deus, que está em toda a parte, estava ali, mas, sendo aquilo que é, um puro espírito, não podia ver como a pele de um tocava a do outro, como a carne dele penetrou a carne dela (SARAMAGO, 2003, p. 26-7)
Com a quebra da virgindade de Maria, Saramago prepara outra mudança em outro fato; Jesus é o primogênito de nove filhos tidos pelo casal, sendo eles: Jesus, Tiago, Lísia, José, Judas, Simão, Lídia, Justo e Samuel.
Moema de Castro e Silva Olival, além do ponto acima tratado, ainda cita outras releituras do texto bíblico em O evangelho segundo Jesus Cristo, como:
[...] a visita dos três reis magos, aqui transformados em três pastores [...] só que um deles, o que simula, na capa de pastor, o Pastor-Demônio, incumbido por Deus de ‘abrir os olhos de Jesus’ [...] essa personagem, variação parodística da tentação de Jesus no deserto, terá significativa presença na formação de Jesus.
[...] a morte de José, por crucificação, aos 33 anos, dados da morte de Jesus, segundo a história sagrada, é uma antecipação sugestiva, simbólica, na pessoa do pai (ser humano), do destino do filho (também ser humano) [...] O sonho que, em vida, atormentou José, após sua morte, atormentará seu filho. (OLIVAL p. 89 – 90).
Estas e outras citações de Olival podem ser vistas como ratificações da idéia sobre a humanização do Divino em José Saramago. Essa visão humana dos Seres Celestiais é, até mesmo, óbvia na obra aqui estudada, mas, a poeticidade com que o autor constrói esse Divino humano compreensível, palpável, é merecedora de uma atenção especial. Nos trechos acima, transcritos de O espaço da crítica, Moema ressalta a espiritualidade do ser humano, alude ao que é passado de pai para filho e, com isso, mostra que Saramago dá a José a paternidade de Jesus, fazendo d’Ele mais homem do que santo. O Pastor-Demônio, que é o responsável por mostrar a Jesus as trivialidades da vida humana, rotuladas como pecados, acompanha-O desde a concepção – é ele quem diz a Maria que ela está grávida – até o encontro de Jesus com Deus, que mais à frente trataremos. Podemos sugerir que no Pastor-Demônio é perceptível outra ironia de José Saramago: se ele mostra a Jesus o que a humanidade pratica e ele é Satanás, é possível ler que tais práticas sejam coisas do Demônio. Mas, nesta visão, o Demônio é de Deus, como veremos mais à frente.
Ao prover Jesus de uma concepção comum, de uma gama de sentimentos inerentes ao homem, Saramago O faz apaixonadamente humano. Jesus é o advogado da humanidade, é seu defensor, identifica-Se com o homem, ou melhor, é o homem, enfrenta Deus, tenta enganá-Lo em prol da humanidade. “A relevância do humano se realçará no desenrolar da trama e, nesse Evangelho, seus desejos, paixões, pensamentos, falas e sofrimentos se erguerão em tom de contraponto à vontade e poder divinos” (OLIVAL,1998, p. 83). Jesus não quer os sofrimentos, as mortes dos homens em nome Dele e de Deus.
Em O Anticristo, lemos que: “Quando não se coloca o peso da vida na própria vida, mas sim no ‘além’, no nada, então se retira da vida toda sua importância” (NIETZSCHE, 1992, p. 65); podemos entender que, como no pensamento saramaguiano, expressado por Jesus, em O evangelho segundo Jesus Cristo, Nietzsche defende que a vida é terrena, desprezando qualquer possibilidade de existência de um Éden. O romancista e o filósofo parecem compartilhar a idéia de que a vida post mortem[1] é um artifício do cristianismo para dominação do povo e, com isso, mais uma vez valorizam o ser humano e o colocam como criador, talvez até mesmo de Deus, movido pelo poder, pela ganância, por medo, necessidade de explicar e a constante auto-exigência de superação, comum a quase totalidade da humanidade.
Em O evangelho segundo Jesus Cristo, Jesus é o centro da narrativa, o núcleo onde estão ligados todos os acontecimentos, no decorrer da história o autor retrata n’Ele todas as fases por que passam os seres humanos durante sua formação. Jesus é um adolescente carregado de todas as dúvidas inerentes à idade e, ainda, com impetuosidade e rebeldia. Observáveis, também, quando Ele sabe da morte das crianças, conseqüência de Seu nascimento.
Antes disso, porém, abriremos um necessário espaço para comentarmos o sonho de José, decorrente da culpa que lhe pesou por não ter avisado aos outros vinte e cinco pais, de Belém, da vinda dos soldados romanos para o extermínio das crianças menores de três anos. Sonho esse que passa, após sua morte, a Jesus. A narrativa trata com grande emoção e sentimentos humanos os acontecimentos que provocaram a culpa em José, trecho que vale ser aqui transcrito, também para maior compreensão do sonho de José herdado por Jesus:
Bom, tenho que ir, e nesse momento ouviu vozes que vinham de um caminho abaixo do local onde se encontrava, e, inclinando-se sobre o muro de pedra que o separava dele, viu que eram três soldados [...] dois deles, com o coto da lança no chão, escutavam o terceiro [...] E a que horas vai ser isso [...] Ao principio da hora terça, quando já toda a gente está recolhida [...] E então a ordem é matá-los todos, A todos não, só aqueles que tiverem menos de três anos [...] E isso vai dar quantos [...] Pelo senso, disse o chefe que devem ser aí uns vinte e cinco.
[...]
um clamor de novos gritos e prantos encheu a atmosfera, eram os homens enlouquecendo debaixo de um céu vazio.[2] [...] Que gritos são aqueles, perguntou, mas o marido não lhe respondeu [...] José respondeu [...] Estão a matar gente. [...] Crianças, por ordem de Herodes [...]
[...]A meio da noite, José teve um sonho. Cavalgava por uma estrada que descia em direção a uma aldeia de que já se avistavam as primeiras casas, ia de uniforme e com todos os petrechos militares em cima, armado de espada, lança e punhal, soldado entre soldados, e o comandante perguntava-lhe, Tu aonde vais, ó carpinteiro, ao que ele respondia [...] Vou a Belém matar o meu filho, e quando o disse despertou com um ronco abominável, o corpo crispado, torcido de terror. (SARAMAGO, p. 106-7; 112; 118-9)
É possível, ao observarmos e interpretarmos as citações acima, medrar a atitude de José pelo sentimento paterno de proteção imediata à cria e, com o distanciamento do perigo, o nascer da culpa por seu “egoísmo”. Um egoísmo, se assim acharmos conveniente dizer, mais culposo para Deus, por seus desígnios, tal observação é passível de corroboração no grifo da citação da página 112; se “debaixo de um céu vazio”, então pode haver a ausência de compaixão por parte do Divino.
Bem, o sonho de José passa ao filho e, com isso, podemos notar que José e Jesus estão unidos pelo mesmo, e Jesus está ligado a Deus por filiação, que é por Jesus questionada.
Em Nietzsche:
Esse ‘mensageiro feliz’ morreu como viveu [...] não para ‘salvar homens’, mas para mostrar como se deve viver. [...] seu comportamento perante os juizes, os verdugos, entre os acusados e diante de toda sorte de difamação e escárnio, sua atitude na cruz. Não opõe resistência, não invoca seus direitos [...] E ele suplica, sofre, ama com aqueles que lhe causaram mal [...] Não se defender, não ter raiva, não atribuir responsabilidade... (NIETZSCHE, 1992, p. 57-8).
O Jesus apresentado por Saramago é um adolescente “comum”, que julga seus pais severamente, que abandona sua casa. Esta construção de Jesus vai de encontro ao Jesus que Nietzsche, ironicamente, trata no ponto citado acima. O “mensageiro feliz” é o Divino como representação dos dominantes, é o que esperam do povo: não se opor, não lutar. Há aqui um paradoxo entre o Cristo saramaguiano e a ironia de Nietzsche.
Mas, esse Jesus, o de Saramago, humano a ponto de ter dificuldades em aceitar sua condição de filho de Deus, ganha a admiração do leitor, que se reconhece em suas atitudes. Jesus que conhece o amor carnal, com Maria de Magdala (Madalena) – uma bela humanização do divino, de Saramago –, é um Divino com maior possibilidade de ser, por nós, compreendido e de compreender-nos.
Não tenha medo, disse Maria de Magdala. [...] deita-te, eu volto já. [...] e Maria de Magdala  apareceu, nua. Nu estava também Jesus, como ela o deixara [...] Maria parou ao lado da cama [...] e disse, És belo, mas para seres perfeito, tens de abrir os olhos. Hesitando, Jesus abriu-os [..]  soube o que em verdade queriam dizer aquelas palavras do rei Salomão, As curvas dos teus quadris são como jóias, o teu umbigo uma taça arredondada [...] quando Maria se deitou ao lado dele, e, tomando-lhe as mãos [...] as fez passar, lentamente, por todo o seu corpo [...] então sentiu que uma parte do seu corpo, essa, se sumira no corpo dela, que um anel de fogo o rodeava, indo e vindo, que um estremecimento o sacudia por dentro, como um peixe agitando-se (SARAMAGO, 2003, p. 282-3).
Nesse emocionante amor, uma criação ficcional, de Saramago, entre Jesus e Maria de Magdala, a humanidade dela atua, além de mostrar a fragilidade emocional do ser humano, como compensador ao que de tirânico Jesus tem de sua parcela Divina; é o divino que tem de ser dessacralizado. Decidimos por essa citação para, mais uma vez, exemplificar a dicotomia entre o humano e o Divino do Jesus saramaguiano e por acreditarmos ser tal passagem carregada de beleza e lirismo. Assim, vemos que José Saramago, em O evangelho segundo Jesus Cristo, não vulgariza o humano – ao contrário, o supervaloriza – e, portanto, nem o Divino.
Em O Anticristo, Nietzsche afirma que:
(...) a personalidade psicológica do redentor só chegou até nós de uma forma bastante deturpada. Essa deturpação é muito verossímil: por muitas razões uma tal personalidade psicológica não poderia permanecer pura, inteira, livre de marcas externas. Tanto o meio em que se movia essa figura estranha quanto a história e o destino da primeira comunidade cristã, estes mais fortemente devem tê-la marcado; retroativamente, sua personalidade foi acrescida de traços desse destino que só vieram a ser compreendidos em conseqüência da guerra e do seu uso como propagandista. (NIETZSCHE, 1992, p. 53).
A visão nietzscheana de um Jesus moldado para satisfazer os interesses de controle das massas e de enriquecimento do cristianismo do dominante, nos faz pensar na visão humanizada do Cristo, construída por Saramago; ora, um ser Divinal que erra, tem raiva, dúvidas, desejos sexuais e sofre de todas as mazelas a que homens e mulheres estão sujeitos, não poderia ser usado como meio de dominação pelo medo, como fez o cristianismo na Idade Média, e que esta e várias outras religiões ainda fazem, por isso nos parece que Nietzsche alude a mudança psicológica imposta a Cristo e Saramago nos faz concluir que esse Cristo humanizado, de sua obra, é, para ele, talvez, o Cristo sem influências ditatoriais, um homem que é como todos os homens de seu povo e diferenciado dele pelo dom do discernimento, da religiosidade. Um dom, digamos, Divino.
1.1. O humano no Senhor Deus
Trabalharemos, a partir deste ponto, a personagem que nos parece ser a maior representação da humanização do Divino escrita por Saramago, em O evangelho segundo Jesus Cristo, a personalidade de Deus. Uma personalidade irônica, aparentemente sádica e que sempre deixa que suas vontades, por díspares que pareçam, sejam as únicas verdades, nos leva a pensar que Deus é o antagonista da humanidade por fazer dela apenas o meio para satisfação de seu id, ego e superego. Mas, se nos lembrarmos dos pensamentos de Nietzsche, veremos que esse Deus é o Deus necessário à satisfação humana por não ser um ente perfeito, e sim um Ser que age em conformidade com a mais pura natureza humana; a que não se envergonha de seu orgulho, a que se impõe pela força física e/ou intelectual, aquela que almeja o mais alto poder.
Bem, Saramago retrata um Deus que parece conceder um livre-arbítrio com cartas marcadas, deixando que a humanidade acredite que pode e está caminhando segundo sua própria vontade, mas até esse sentimento de liberdade é criado por Ele; exemplificamos isso com Jesus tentando enganá-Lo para frustrar Seus planos e poupar as dores à humanidade que deles decorreram:
Que ajudeis a minha morte a poupar as vidas dos que hão de vir, Não podes ir contra a vontade de Deus, Não, mas o meu dever é tentar, Tu estás salvo porque és filho de Deus, mas nós perderemos a nossa alma, Não, se decidirdes obedecer-me, é ainda a Deus que estareis obedecendo. (...) O filho de Deus deverá morrer na cruz para que assim se cumpra a vontade do Pai (...) Um simples homem, sim, mas um homem que se tivesse proclamado a si mesmo rei dos Judeus (...) (SARAMAGO, 2003, p. 436).
Jesus acredita estar sendo, fazendo-se ser condenado como rei dos judeus ao invés de filho de Deus, heterodoxo aos planos do Senhor. Acredita que isso evitará as atrocidades e desgraças cometidas pelos homens em nome dos Espíritos Celestiais, tais como: martírios, flagelações, as Cruzadas ou Guerras Santas, a Santa Inquisição e tantos outros infortúnios impingidos aos homens pelo homem em nome do Divino. Saramago, em O evangelho segundo Jesus Cristo, usa cinco páginas, da 381 a 385, para citar nomes de mártires e, mesmo com tantos lembrados, ainda outros nos vêm a memória. Então, pode nos ficar a dúvida sobre a origem de Deus, parecendo sermos levados a crer que, assim como a leitura de que todos os seres humanos podem ser apenas joguetes de Deus, pode, o que nos parece ainda pior, como prega Nietzsche, ser esse Deus a ferramenta de poucos para que conquistem a vassalagem de muitos.
O Deus da obra de José Saramago é, talvez, o mesmo Deus que Nietzsche defende e diz ser o primeiro, o que atende às necessidades de um povo, que não exige atos e ações contrárias à natureza humana.
Um povo que ainda acredita em si, também possui ainda seu próprio Deus. Venera no Deus as condições graças as quais ele se afirma, suas próprias virtudes; projeta seu prazer em si mesmo, seu sentimento de poder num ser a quem se pode agradecer por tudo isso. Quem é rico quer dar; um povo orgulhoso precisa de um Deus para fazer sacrifícios [...] O homem é agradecido por ser homem: só por isso precisa de um Deus. Um deus assim deve ser útil e prejudicial, saber ser amigo e inimigo. Ele é admirado no bem como no mal. A castração antinatural de um Deus que se torna apenas um Deus do bem está totalmente fora do nosso ideal. O Deus bom é tão necessário quanto o mau [...] Que importância teria um Deus que não conhecesse raiva, vingança inveja, escárnio, astúcia, violência? que não conhecesse nem os encantadores ardores da vitória nem os da destruição? Um Deus assim seria incompreensível: para que tê-lo? (NIETZSCHE, 1992, p. 37-8).
Este Divino de Nietzsche parece ser a base do Deus saramaguiano, que é um Deus que aglutina todas as qualidades, segundo Nietzsche, necessárias a um Deus para a satisfação do povo que o criou e adora. Para o filósofo a transformação desse Deus em um Deus só do bem coloca-O em um ponto distante da realidade humana. Saramago parece evidenciar o Senhor Deus mais próximo do homem e da mulher, satisfazendo, com isso, cremos, uma grande parcela da população hodierna que busca um Deus feito a sua imagem e semelhança e não o contrário.
Outra significativa, e neste estudo indispensável, recriação de Saramago é o Pastor-Diabo, que parece ser uma personagem coadjuvante de Deus ou, ainda e mais provável, parte de Deus. O Pastor-Diabo não comete as esperadas maldades legadas a Satanás pelo imaginário popular, que é fartamente regado pelos textos bíblicos, isso sim, comporta-se com ética; tem consciência de seu dever e, por isso, é servidor das vontades d’Ele. Podemos observar entre as personagens Deus e Diabo a presença do dualismo, que normalmente tem o Bem representado pelo claro, pela luz, por Deus e o Mal pelo escuro, pelas trevas, pelo Demônio. Em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Saramago nos leva a pensar em uma inversão de valores, já que o Pastor-Diabo propõe seu arrependimento e subserviência a Deus e este recusa-se a aceitar para que não caia no esquecimento.
E, talvez, trabalhado o conceito do Uno que seria Deus: se Uno ele for, o Diabo também, obrigatoriamente, Ele teria que ser, Saramago humaniza definitivamente o Senhor – dá a Ele a condição imperialista que habita nos homens e que em muitos manifesta-se, decorrendo dessa necessidade de poder absoluto Deus torna-se mesquinho, soberbo, egocêntrico etc, mostrando a nós o que carregamos em nós mesmos – e, mais uma vez, afirma-se no pensamento de Nietzsche:
Quando as premissas da vida ascendem, quando tudo que é força, coragem, dominação, orgulho forem eliminados do conceito divino [...] quando se tornar o Deus-dos-pobres-diabos, o Deus-dos-pecadores, o Deus-dos-doentes por excelência, como pode o predicado ‘salvador’, ‘redentor’ permanecer como sendo um atributo divino? O que quer dizer uma tal metamorfose, uma tal redução do divino? [...] transformando-se então numa coisa cada vez mais pálida e menos substancial, tornando-se ‘ideal’, ‘puro espírito’, ‘absolutum’, ‘coisa em si’... Decaída de um Deus: Deus torna-se ‘coisa em si’... (NIETZSCHE, 1992, p. 39).
O filósofo defende, em sua obra O Anticristo, o Deus que é sentimentalmente semelhante à humanidade e, assim, pode ser o que a ela serve, já que para tal foi, por ela, criado. O Deus metamorfoseado em espírito de perfeição soa inatingível ao homem e, então, cerceia seus instintos, o faz medíocre. Saramago retrata o Deus nitzscheano, ainda mais carregado de predicados rotulados como não bem quistos pelos conceitos modernos de homem e de Divino. Deus é sedento de sangue e poder, como exposto num diálogo com Jesus:
O único Deus sou eu, eu sou o Senhor [...] Morrerão milhares. Centenas de Milhares. Morrerão centenas de milhares de homens e mulheres, a terra encher-se-á de gritos de dor, de uivos e roncos de agonia, o fumo dos queimados cobrirá o sol, a gordura deles reclinará sobre as brasas, o cheiro agoniará, e tudo isso será por minha culpa. [...] Pai, afasta de mim este cálice, Que tu o bebas é a condição do meu poder e da tua glória, Não quero essa glória, Mas eu quero esse poder. [...] Então o Diabo disse: É preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue. (SARAMAGO, 2003, p. 391).
Este Deus que pode nos parecer, se humanizado, humanizado com os mais pérfidos sentimentos – ainda por mostrar-se um e ser outro – se nos despirmos das máscaras e conseguirmos analisar, mesmo que de forma superficial, a realidade das emoções que são partes, por vezes desconhecidas, dos seres humanos, assemelhar-se-á, o humano Deus de Saramago, a ditadores, poderosos dominantes e, mais próximo ainda, aos nossos pensamentos escusos e sombrios. Há, em cada homem ou mulher, um tanto desse Deus ou há um tanto de cada mulher ou homem, em Deus.
Na passagem de O evangelho segundo Jesus Cristo, em que estão em um barco, rodeados por impenetrável nevoeiro, Jesus, Deus e o Pastor-Diabo, a conversar por 40 dias – Deus contando o que irá acontecer após a crucificação de Jesus e outras coisas que não nos interessam agora – ao buscarmos a simbologia do numeral 40 encontramos que “quarenta é o número da espera, da preparação, da provação ou do castigo (...) Pode-se dizer que os escritores bíblicos marcam a história da salvação, dotando os acontecimentos principais com esse número; ele caracteriza assim as intervenções sucessivas de Deus” (CHEVALIER e GHEERBRANT, 2002, p. 757) e nevoeiro:
é símbolo do indeterminado, de uma fase de evolução: quando as formas não se distinguem ainda, ou quando as formas antigas que estão desaparecendo ainda não foram substituídas por formas novas precisas. Símbolo igualmente de uma mescla de água e de fogo, que precede toda consistência, como o caos das origens, antes da criação dos seis dias e da fixação das espécies (CHEVALIER e GHEERBRANT, 2002, p. 634).
Por meio destas simbologias, sugerimos que o autor pode ter comparado essa passagem – paródia da tentação de Cristo no deserto – à criação de uma nova crença que prega a vinda de Jesus como o começo de tudo – nevoeiro – e ainda mais se somarmos a isso os quarenta dias significando intervenções de Deus. Pode ser, portanto, o momento da criação do novo Deus, o do Bem Supremo, o Espírito de Luz, que se instala e aniquila o antigo.
A humanização do Divino em O evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago, é um assunto explícito, facilmente verificável com a leitura, ainda que leiga, dessa obra. Mas, mesmo assim, pode ser, esse tema, uma pesquisa, simultaneamente aprazível e inquietante; já que a observação do pensamento nietzscheano, como aparente suporte às construções das personalidades Divinais de Saramago, promove especulações fascinantes, que nos conduzem à conjeturas a respeito de nossas crenças e verdades absolutas: teriam sido arraigadas em nós? seriam ranços de uma postura de obediência cega? Quantos outros deuses perfeitamente bons estaríamos, ou estamos, nós absorvendo sem ao menos dar-nos o direito da dúvida? Muitos outros questionamentos são estimulados em nós por Nietzsche e Saramago; quão beneficamente irresolutos nos podem deixar suas obras: O Anticristo e O evangelho segundo Jesus Cristo, respectivamente.
2 – E se fez palavra, e a palavra o todo faz
Neste terceiro capítulo pretendemos explorar a força da Palavra[3]. Força que, em nosso entendimento, quem sabe seja a responsável por mentiras e verdades ou, ainda e simplesmente, somente pelas mentiras se adotado for que verdades são mentiras que deram certo.
A obra O evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago, poderia, talvez, ser hoje uma verdade absoluta se fosse contemporânea a um dos quatro Evangelhos bíblicos, que são tidos como escrituras absolutamente verazes. Imaginemos as várias alterações que, provavelmente, sofreu cada Evangelho ao longo do tempo; sabedores que somos da simplicidade dos seguidores de Jesus e que a educação e a escrita eram, na época, privilégio de poucos e ainda em posições especiais, supomos que os primeiros registros da passagem do Messias por esse mundo tenham sido pequenos, toscos até. E por isso ao tentarmos “[...] reconstruir a história a partir dos dados presentes na Bíblia, temos que ter em mente que o texto não caiu pronto do céu. Ele é fruto de um longo processo de elaboração, passando por muitas mãos [...]” (SCHLAEPFER; OROFINO; MAZZAROLO, 2004, p.32). Com o passar do tempo tais escritos devem ter sofrido alterações em virtude das várias traduções, de interesses, da retórica de cada período – e porque quem relata algo que viu ou ouviu, relata-o com interferência de pontos pessoais – e vários outros fatores que, se fossemos aqui enumerar teríamos um estudo histórico e não metalinguístico.
Em Nietzsche, tentando bravamente esquecer a conotação sócio política, o grifo que fizemos pode nos levar a confirmação de que a Palavra é a responsável pelo que acreditamos:
[...] Leiam os Evangelhos como o livro da sedução usando a moral como recurso: a moral foi coberta com uma capa por essa gentinha, eles conhecem a importância da moral! Através da moral conduz-se a humanidade mais facilmente pelo bico! [...] colocaram definitivamente a ‘comunidade’, os ‘bons’ e os ‘justos’, de um só lado, do lado da ‘verdade’, e o resto, o ‘mundo’, do outro lado [...] uma pequena multidão disforme de hipócritas e mentirosos começou a monopolizar os conceitos de ‘Deus’, ‘verdade’, ‘luz’, ‘espírito’, ‘amor’, ‘sabedoria’, ‘vida’, como se fossem seus sinônimos, para com isso delimitar o ‘mundo’ [4] [...] (NIETZSCHE, 1992, p. 67).
O que é dito, e se adotado por uma minoria, torna-se lei nesse círculo e se verídico para muitos será uma máxima, quase que intocável. As várias interpretações de uma mesma Palavra sugerem a influência de arquétipos internalizados por pessoa, grupo ou comunidade. Influência que, provavelmente, ocorreu na moldagem de Deus, até a forma adotada na atualidade.
Assim, ao lermos no texto bíblico:
[...] pois o papel criador não cabe ao Espírito e sim à palavra divina [...] (GÊNESIS, um, 2)
No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio junto de Deus
[...]
[O Verbo] era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem. Estava no mundo e o mundo não o conheceu.
[...]
E o Verbo se fez carne e habitou entre nós [...] (EVANGELHO SEGUNDO SÃO JOÃO, 1, 1-2, 9, 14)
Baseados em uma interpretação que direciona à sugestão de que é a Palavra o cerne de toda criação, nos é permitido, pelo ângulo do estudo aqui proposto, supor que o homem fez Deus, como Ser onisciente, sabedor e usuário do poder da Palavra, fazendo-Se adorado por meio de seu poder. Em várias passagens do Antigo Testamento encontramos alusões aos ímpios (povos pagãos), ora, se Deus criou um casal e esse casal teve dois filhos, um foi morto, etc. Então, de onde surgiram os ímpios, os que não criam? Podemos entender que esses já existiam, independentemente da vontade Divina. Se assim foi, pensamos que os pios criaram Deus e o impingiram aos ímpios, aparentemente, com isso aumentando seu poderio de dominação por meio da unificação da crença e, para tanto, muniram-se do convencimento pela Palavra.
Sem as Escrituras as noções do Divino que imperam no mundo, por suposto, não seriam as mesmas, pois teriam como suporte a oralidade e a Palavra falada é mais facilmente adulterada e, por isso, não é tão crível quanto a escrita. O homem descobriu que a Palavra, talvez, instigue a humanidade a acreditar, a sublimar, a destruir, a relevar, a desprezar e tantas outras leituras e releituras de ética, de dogmas, de pecados etc, que constituem as verdades de uma sociedade ou seja: o discurso persuasivo institucionaliza conceitos e condutas, a Palavra cria mandamentos.
[...] idéia acerca do discurso persuasivo: ele se dota de signos marcados pela superposição. São signos que, colocados como expressões de ‘uma verdade’, querem fazer-se passar por sinônimos de ‘toda a verdade’. Nessa medida, não é difícil depreender que o discurso persuasivo se dota de recursos retóricos objetivando o fim último de convencer ou alterar atitudes e comportamentos já estabelecidos[5].
[...] o discurso persuasivo é sempre expressão de um discurso institucional. As instituições falam através dos signos fechados, monossêmicos, dos discursos de convencimento. Tanto as instituições maiores – o judiciário, a igreja, a escola, as forças militares, o executivo etc. – quanto as microinstituições – a unidade familiar, a sala de aula, a sociedade de amigos do bairro etc. (CITELLI, 2000, p. 32).
Vimos que não é válido a qualquer pessoa dar redenção dos pecados, mas só, e tão somente, é dado esse poder aos que se investem da autoridade de direito, ao sacerdote, por exemplo. Essa, digamos, autorização foi instituída e tornou-se uma verdade absoluta e essa verdade absoluta se concretizou por meio da Palavra. Diária e constantemente nos deparamos com tais conformidades e é raro quando as notamos, então, mais uma vez, insistimos na possibilidade de ser o Divino procedente da Palavra, já que esta é o cerne do discurso e o discurso que persuade torna-se, em nosso entendimento, na maioria das vezes, irrefutável. Uma idéia surge, alastra-se, passa à verossimilhança e, depois de entranhada no imaginário coletivo, transforma-se em dogma, quando a Palavra é usada convenientemente e pela instituição e/ou pessoa apropriada. Para uma constatação do poder da Palavra apelaremos, novamente, a Nietzsche: “Poder-se-ia com alguma condescendência chamar Jesus de ‘espírito livre’: ele não dá importância a nada que seja firme: a palavra mata, tudo que é firme mata” (NIETZSCHE, 1992, p. 55). Sugerimos que o filósofo compartilha do poder da Palavra; se a Palavra mata é porque, provavelmente, faz nascer. É constante em O Anticristo a afirmação da mudança imposta à humanidade na forma de como encarar Deus, mudança essa que O transformou em ‘espírito de luz’, o ‘todo bom’, o ‘nada’, por meio do discurso da igreja.
Ainda segundo Friedrich W. Nietzsche:
Dessa vez desejo colocar a pergunta decisiva: existe propriamente um antagonismo entre convicção e mentira? O mundo inteiro acredita nisso; mas no que não acredita o mundo inteiro! Cada convicção possui sua história, suas formas preliminares, suas tentativas e erros: torna-se convicção na medida em que não era, na medida em que ainda quase não é. Como? a mentira não estaria também contida nessas formas embrionárias de convicção? Às vezes basta uma simples troca de pessoas: no filho torna-se convicção o que ainda era mentira ao pai” (NIETZSCHE, 1992, p. 80-1).
Mais uma vez encontramos, nesse filósofo, ratificação para nossas idéias. As convicções parecem ser, antes de instituídas como verdades, criações aleatórias. Porém, basta que elas sejam adotadas por indivíduos como verdadeiras para tornarem-se incondicionais. Talvez seja de responsabilidade do uso persuasivo da Palavra as crenças que herdamos e, portanto, como herança, não as questionamos e, ainda, como herança as passaremos adiante; como a provável veracidade dos Seres Celestiais.
Na obra de José Saramago aqui estudada, há a alusão a esse poder de criar e destruir que a Palavra possui. Na parte da história, já mencionada anteriormente para outros fins, em que estão em um barco Jesus, Deus e o Pastor-Diabo, envoltos por denso nevoeiro, por quarenta dias, acontece a seguinte conversa:
Parece-me claro e óbvio que não tens culpa, e, quanto ao temor de que te atirem com as responsabilidades, responderás que Diabo, sendo mentira, nunca poderia criar a verdade que Deus é, Mas então, perguntou Pastor, quem vai criar o Deus inimigo. Jesus não sabia responder, Deus, se calado estava, calado ficou, porém do nevoeiro desceu uma voz que disse, Talvez este Deus e o que  há de vir não sejam mais do que heterônimos, De quem, de quê, perguntou, curiosa, outra voz, De Pessoa, foi o que se percebeu, mas também podia ter sido, Da Pessoa. Jesus, Deus e o Diabo começaram por fazer de conta que não tinham ouvido, mas logo a seguir entreolharam-se com susto, o medo comum é assim, une facilmente as diferenças. (SARAMAGO, 2003, p. 389-90)
Podemos notar, nesse trecho, a interferência direta do escritor: “[...] Talvez esse Deus e o que há de vir [...]”, que dialoga com o narrador: “[...] De quem, de quê [...]” e é ouvido pelas personagens. Seguindo esta sugestão podemos dizer que Saramago coloca-se como o verdadeiro Deus, já que o universo do livro é regido por ele e as personagens Deus, Jesus e o Pastor-Diabo ouvem a voz, que seria a dele, e calam-se assustados, ora, se Deus está no barco e ouve as vozes, podemos imaginar que para Ele tais vozes têm o mesmo efeito que Sua voz teria para um simples mortal, ou seja: Deus, mais uma vez, é colocado como criação humana e, por isso, carrega em si os humores de seu criador. O narrador, a outra voz, pode ser uma releitura dos Evangelistas; é ele quem conta a história desse evangelho e é ele quem, ao que parece, mantém contato com o ser supremo, neste caso Deus in Saramago. Bem, então Saramago retrata o que viemos frisando neste trabalho e, especialmente, neste capítulo: que as crenças são fundadas na Palavra e a Palavra é arma humana. Portanto, a leitura possível é uma crítica à Bíblia; assim como ele, Saramago, escreve o que quer, da forma como imagina, o que impede que dessa maneira também tenha sido escrita a Bíblia? Se deixarmos um pouco de lado o temor de injúrias – também exemplos da persuasão do discurso, em nós – veremos que os Evangelhos são considerados verazes por já serem divulgados por, aproximadamente, dois mil anos e por uma instituição poderosa, temida no passado e respeitada atualmente.
Como embasamento a tais idéias lemos que:
[...] ficamos chocados quando descobrimos que muitos livros bíblicos, considerados como históricos, na verdade são narrativas míticas contando as origens maravilhosas do povo de Israel. A história presente na Bíblia não veio de livros didáticos, mas surgiu nas rodas de conversa, à noite, ao pé do fogo, relembrando os feitos antigos de gente que lutou pela liberdade do povo. Nestas rodas não importavam tanto as datas precisas, mesmo porque o calendário naquela época não era muito preciso. O mais importante era que os feitos mais importantes fossem transmitidos de geração em geração, para que não se perdesse a memória dos fatos e dos personagens antigos. A grande preocupação do povo de Deus era a fidelidade a Deus e aos antepassados chamados por Deus. (SCHLAEPFER; OROFINO; MAZZAROLO, 2004, P. 31)
Se as histórias que a Bíblia concentra foram por muito tempo passadas de boca a ouvidos, sucessivamente, como era o costume da época para manter vivo um conhecimento, então é certo afirmar que até serem registradas sofreram alterações por influência da interpretação dada a elas por cada contador e, mais tarde, por cada tradutor ou copiador dos textos escritos, tanto por inspiração dos próprios, quanto por ordens superiores, atendendo à necessidade de condução do rebanho, quem sabe. Será pertinente, então, dizer que os Evangelhos, criados e escritos pelo homem, contêm a história do Divino, também uma possível criação humana. E por não ter como saber, esse homem, da realidade espiritual dos Seres Celestiais, os fez a sua imagem e semelhança, dentro do seu imaginário do que seria o Celeste.
Com a liberdade de criação dada pela Palavra ou à Palavra, pela Literatura, José Saramago escreve seu evangelho e faz, nele, uma alusão ao poeta português Fernando Pessoa. Quando a voz – do autor ou do Deus in SaramagoDe quem, de quê, perguntou, curiosa, outra voz, De Pessoa, foi o que se percebeu, mas também podia ter sido, Da Pessoa” (SARAMAGO, 2003, p. 389) – diz “De Pessoa”, é possível que esteja referindo-se aos vários heterônimos criados pelo poeta. Se Pessoa pode dar vida a tantos usando, para isso, a Palavra, o que impediria o homem de criar, apropriando-se da mesma matéria prima, o Divino? Pois: “A grande verdade é a que está à minha altura e a que possa alcançar. Nenhuma indicação de verdades maiores. E nem saberei o que fazer com elas” (GUIMARÃES, 1971, p. 28). O ser humano parece fazer sua a verdade que o apraz e essa torna-se a única, para que possamos saber, quase sempre, o que fazer com elas.
Portanto, a Palavra aparenta ser o meio, ter a força para a construção dos nortes necessários à humanidade para que essa possa existir e coexistir em si. Em O evangelho segundo Jesus Cristo, José Saramago nos assusta quando nos deixa saber o quão persuadidos fomos e somos. E, com uma prova do poder da Palavra , da valorização do homem e da mulher e da humanização do Divino, termina seu evangelho:
[...] Jesus morre, morre [...] de súbito o céu [...] se abre de par em par e Deus aparece [...] e sua voz ressoa por toda a terra, dizendo, Tu és meu Filho muito amado, em ti pus toda a minha complacência. Então Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício [...] e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e de sofrimento que do seu lado irá nascer e alargar toda a terra, chamou para o céu aberto onde Deus sorria, Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez. Depois foi morrendo no meio de um sonho (SARAMAGO, 2003, p. 444).
Na oração, que constitui as últimas palavras do Jesus de Saramago na condição humana, Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez, há, mais uma vez, a valorização explícita do homem, Jesus coloca-se contrário a atitude de Deus; deixa subentendida, nesse pedido de desculpas, como que uma profecia do futuro reservado à humanidade quando da adoração unificada de Deus. E, ao analisarmos o Deus saramaguiano, notamos sua personalidade tirânica; Jesus, o do O evangelho segundo Jesus Cristo, é uma dicotomia entre o despotismo do ser Divino e a variada gama de humores do ser humano. Se aprofundarmos um pouco mais nossa filosofia analítica, sugeriremos que Deus pode ser o estereotipo de uma maneira de comportamento humano, o que, como já, exaustivamente, foi dito nessa pesquisa, é dominante e sedento de poder; enquanto Jesus pode ser o vassalo indignado com a nobreza e, ainda, lutando contra a sedução do domínio. São tão complexos quanto humanos os Divinos de O evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago.
Considerações finais
Este estudo da humanização do Divino, que em um primeiro contato nos pareceu óbvio, já que isso é totalmente explicitado por Saramago em seu livro O evangelho segundo Jesus Cristo, desvelou-se apaixonante e surpreendente.
A visão dos Seres Celestiais com qualidades e defeitos inerentes ao homem, pode levar ao questionamento de nossas crenças; isso por meio da percepção da valorização do que é natural a homens e mulheres, em detrimento as normas impostas à humanidade durante todos esses séculos por meio da persuasão com que a Igreja medieval dominou o mundo, dito, civilizado. A consciência de uma possível indução a pensamentos que podem levar a servidão é observável na obra de Friedrich W. Nietzsche; O Anticristo; as idéias desse filósofo sobre a transformação do Deus que sentia como os que o adoravam, em um Deus de supremo primor e, portanto, impossível de ser alcançado, faz do homem, assim, um ser em frustração constante por almejar algo que lhe é impossível: a perfeição.
As visões de José Saramago vão ao encontro das idéias de Nietzsche quanto a forma de encarar a concepção moderna de Deus. Os autores são contrários ao uso das Divindades para a diminuição da auto-estima, como proclamação de que a subserviência é o caminho para a glória eterna, dividem, ainda, o descontentamento com o prêmio instituído a quem não comete ou tenta não cometer as infrações conclamadas, o Paraíso. O filósofo afirma que essa crença é infundada, que a vida é terrena e que se nos fosse dado, no pós-morte, o que é prometido, seria apenas necessário esperar a morte, sem preocupações, vivendo pacata e bucolicamente. Parece-nos ser José Saramago simpatizante, também, de tal pensamento e então, com a liberdade oferecida pela Literatura, o escritor português refaz, reescreve, o Evangelho e, em seu evangelho, trata de assuntos variados como, por exemplo, os opostos Imperialismo X Socialismo – tema já muito estudado – representados por Deus e Jesus, respectivamente; alude à tirania causada pelo poder; descreve com personagens aparentemente comuns os sentimentos que formam o homem e a mulher e, para expressar essas e outras nuances da humanidade, utiliza-se da humanização do Divino aparentemente embasado na filosofia de Nietzsche.
Ainda sobre o poder da Literatura, observamos que a criação de um deus pode ser obra da palavra. Nossos estudos nos levam a crer que o homem condiciona e é condicionado, institui suas verdades, que permanecem verdadeiras até que suas necessidades as tornem esquecidas ou as façam retornar ao que eram: imaginação. A palavra é, para tal, um meio muito eficaz quando utilizada pela indústria correta. Assim, sugerimos que as mudanças na personalidade Divina – que ainda hoje ocorrem sutil e constantemente – são vinculadas aos quereres de dominantes, aqueles que carregam em si o poder da verdade, aqueles que têm palavras tão fortes a ponto de criarem verdades absolutas. Este estudo deve nos levar a reflexão sobre essa capacidade de influência e alcance da Literatura quando esta é escrita de forma instigante. Instigante a ponto de, mesmo nos chocando por arranhar ou quebrar paradigmas, fazer-nos envolvidos por uma visão do Divino que, até em O evangelho segundo Jesus Cristo, nos seria impossível, sequer, imaginar sem que sofrêssemos pruridos na consciência.
Após a descoberta de uma possível inverdade quanto às origens Divinas, podemos seguir por duas das muitas alternativas de interpretação que se abrem com a leitura dos dois autores aqui estudados: para a primeira continuaremos a obedecer as verdades implantadas de que o homem é criação de Deus, feito a Sua imagem e semelhança, e de que Deus é o Bem supremo, a mais completa encarnação da perfeição, o inatingível. Para a segunda evoluiremos com alguma certeza de que o Divino é obra racional do homem, criado a sua imagem e semelhança e é constituído da mais vasta gama de sentimentos, humores, podendo ser, por isso, compreendido pela humanidade.
Portanto, a humanização do Divino, em O evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago, somado ao O Anticristo, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, obras, entre outras, que pudemos tratar aqui, além de propiciarem o prazer único que provém da boa leitura, nos levam ao questionamento de muito do que temos como exato, de como isso nos foi impingido como veraz no decorrer da história, de como as aceitamos, passíveis. Então, seguindo as alternativas de resposta destas e de outras perguntas mais, chegaremos a um ponto de convergência: na descoberta de que utilizaram e utilizam, seja que linha for, independente da origem, a persuasão do discurso para instituir-se ou para ser instituída. Ou seja; o poder maior, aparentemente, é a força da Palavra e o emprego deste poder para a implantação das verdades.

O Sorriso do Lagarto

                                                                  


Vou tentar ser bem critico desta vez. O livro de João Ubaldo, O sorriso do Lagarto, não vem a ser para mim uma inovação. Acho o livro comprido por demais, apesar de certos momentos o autor ter que dedicar a esquivar de algumas partes da historia para tentar deixar mais surpreendente.
O livro nos expõe fatos interessantes, como o respeito que o homem tem que ter com Deus, que é questionado no livro, a religiosidade versus a ciência,  aborda em certo tempo com Nemesio, um homem que me chamou muita a tenção, no momento em que ele fala da ignorância das pessoas, e em outro momento que ele fala sobre o respeito para com os negros, por ele achar que nem eles mesmos respeitam-se, acham ruim quando faltamos com respeito a eles e dizem que é logo racismo.
Também nao poderia deixar de lembrar que ele faz uma critica ferrenha à burguesia, mostra como os ricos vivem em praias paradisiacas, e tem mais existe um homossexual que so faz ato sexual com seu pistoleiro amigo e vive dizendo que nao gosta de homossexual, pode um negocio desse?
Acho que o livro deveria ter tomado o rumo da historia que para mim deveria ter sido principal e não a secundaria, que fala sobre mexer em embriões, mudança de DNA e etc.Se bem que falar sobre a burguesia, olhando de outra maneira, é sempre bom falar contra ela. Mas Ubaldo preferiu nos mostrar mais sobre o peixeiro que era formado em biologia e que nunca veio a fazer nada em sua vida, tanto é que no momento em que ele deseja fazer algo, tiram-lhe o sopro da vida.
Quando ao titulo do livro juro que minha ignorância não deixou entender por que este nome, O sorriso do lagarto, pois o lagarto aparece três vezes em todo o livro com que significado, juro não saber, o padre Monteirinho também o vê no final do livro e fica angustiado como ficara João Pedroso, personagem principal de toda narrativa, e com medo ao mesmo tempo, mas para mim ficou incompreensível.
João Ubaldo perdeu para mim um pouco o rumo de sua própria historia.
 

O Código da Vinci

          


O assunto do livro é religião, envolvendo sociedades secretas, censura de conhecimento e uma nova versão para a vida de Jesus Cristo. As personagens principais são Robert Lagdon, professor de simbologia e Sophie Neveu, criptógrafa da polícia francesa. Os dois se envolvem na morte do curador do Louvre Jacques Sauniére e através de pistas que a vítima deixou, os protagonistas vão descobrindo um segredo guardado há cerca de dois mil anos através de mensagens indiretas colocadas em obras de Leonardo da Vinci.
Mas, o que dizer sobre o livro? Acho que a palavra entretenimento seria a mais adequada, assim como é para Sidney Sheldon e outros escritores desta ramificação. O livro de Dan Brown nos traz interessantes informações desconhecidas pela maioria do publico que foi alvo deste livro. O livro é realmente uma aula de arte e informações interessantíssimas, falando sobre Opus Dei, Vaticano e Priorada de Siao. Temo porem, que este tipo de literatura venha a ser a mais escolhida entre muitas pessoas. Vê-se que Dan Brown assim como outros escritores conseguem manter o suspense num ritmo frenético. Fazendo os capítulos do livro serem pequenos para nos dar a impressão que estamos lendo rápido. Realmente lemos rápido por saber quem esta a fazer o que. Mas, longe de mim parecer pretensioso, em determinados instantes do livro é capaz de saber o que vai acontecer antes mesmo do escritor mencionar. Sendo eu um fã incontestável de Sir Arthur Conan Doyle, um dos mestres do romance policial, tendo escrito as aventuras de Sherlock Holmes, não temo em dizer que Dan Brown está longe de ser um bom escritor assim como a maioria dos grandes mestres do suspense. O livro trata sobre o que muita gente já ouvira falar, o Graal, o que vem a ser o Graal,Dan Brown nos diz, onde eles está escondido, isso ele também nos diz. Mas lembre-se de que isso é ficção. Não enlouqueça em busca do que muitos outros na realidade já buscaram e morreram tentando.
Acho ate interessante milhões de pessoas no mundo terem lido este intrigante livro de Dan Brown, mas vejamos, existem outros milhões de livros que falam sobre o que ele relata no livro de uma maneira mais verdadeira, digamos assim. Infelizmente tenho provas de que a população acharia estes tipos de livros sacais, mas acho que sejam assim para eles somente por que ao é contado como uma historia da carochinha.
Ora meus amigos, Dan Brown escreve, isso é fato, mas nem sempre os best-sellers são livros ótimos. Uma vez disseram-me que um best-seller é o mesmo de clássico, felizmente consigo distinguir entre um clássico da literatura mundial e best-seller de Dan Brown.